5# COMPORTAMENTO 22.4.15

     5#1 MINHA CASA MINHA VIDA SOB O DOMNIO DO CRIME
     5#2 O DIREITO DOS SEM ESCOLA
     5#3 A VEZ DA GASTRONOMIA CEREBRAL
     5#4 GISELE: DESPEDIDA NO AUGE

5#1 MINHA CASA MINHA VIDA SOB O DOMNIO DO CRIME
Milcias e traficantes controlam os 64 conjuntos habitacionais do Rio e governo federal busca alternativas para o problema antes de construir novos condomnios
Helena Borges (helenaborges@istoe.com.br)

"Achvamos que tnhamos ficado livres de um sistema criminoso, mas estamos assistindo  reorganizao das mesmas prticas violentas de antes, denuncia  ISTO uma contemplada pelo Programa Minha Casa, Minha Vida no Rio de Janeiro. A moradora pediu sigilo de identidade e no  difcil entender o motivo. Todos os 64 conjuntos habitacionais do programa federal implantados na cidade vivem sob domnio de organizaes criminosas. A carioca que no quer se identificar faz parte de uma das 85 famlias transferidas da favela da Indiana, na zona norte da cidade, para o conjunto Bairro Carioca, em Triagem, a 24 quilmetros de distncia. Segundo denunciam os moradores, ali quem manda  a milcia, mas inquritos policiais mostram que o trfico tem sua parcela de poder entre os conjuntos construdos no municpio. Tambm h registros de denncias de violncia nos empreendimentos do programa em outros 16 estados. 

DESCASO - Nas duas fotos, o Condomnio Guadalupe, no Rio, que est tomado por criminosos. Acima, invasores fazem uma corrente. Abaixo, flagra de bandido com arma

Diferentemente de outras cidades, no Rio mais da metade dos moradores do Minha Casa Minha Vida chega aos apartamentos por ordem de remoo e no por financiamento. O resultado  o perigoso encontro de grupos oriundos de territrios dominados por faces rivais. No Conjunto Residencial Haroldo de Andrade I, na zona norte, por exemplo, 80 famlias foram expulsas sob ordem de Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, um dos criminosos mais procurados pela polcia carioca. As pessoas expulsas vinham justamente de uma favela comandada por adversrios do traficante. Em outubro do ano passado, ele enviou mensagem de voz a seus oponentes informando que os que mudaram de lado e se juntaram aos seus capangas ganharam apartamentos. A realidade  muito parecida no condomnio Valdoriosa, em Queimados, regio metropolitana fluminense. Em entrevistas realizadas pelo Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade, 50% dos moradores admitiram ter visto pessoas armadas circulando pelo local.

A Secretaria Estadual de Segurana informa que est realizando investigaes sigilosas, mas que prendeu em flagrante trs pessoas em dois condomnios diferentes entre os dias 8 e 10 deste ms, todas por trfico de drogas. Mais operaes e prises esto por vir, anuncia o rgo. No entanto, segundo Sergio Magalhes, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, o problema no  apenas de polcia. No se resolve a questo da habitao somente com o fornecimento de moradia. Desse modo se desestrutura as cidades e se impe uma vida em guetos. Precisamos olhar para as experincias anteriores e reinventar o programa, criando uma poltica urbana.

A funcionria pblica Maria do Socorro, 49 anos, 35 deles vividos na favela Indiana, vem lutando para no ser transferida para uma residncia do projeto. Quem se mudou, se arrepende. As pessoas esto desesperadas porque pagam todos os impostos que antes no pagavam e mesmo assim tm problemas. Os milicianos esto ocupando os apartamentos, diz. Aps criar uma fora-tarefa interministerial para gerenciar a crise, em abril do ano passado, o governo federal agora rene especialistas em polticas pblicas para montar um diagnstico de segurana a ser elaborado antes da construo dos prximos condomnios. Pedro Strozenberg, um dos estudiosos convidados e secretrio executivo do Instituto de Estudos da Religio, diz que a inteno  criar um dilogo entre municpios, estados e Unio porque sem essa sintonia, estaro sendo construdos condomnios vulnerveis e violentos.  um desafio enorme, mas  tambm o nico caminho para conquistarmos cidades mais seguras.


5#2 O DIREITO DOS SEM ESCOLA
Caso de jovem que estudou em casa e obteve na Justia a sua vaga na faculdade coloca em evidncia a falta de proteo legal a quem aprende fora das instituies de ensino. E joga luz sobre um novo mtodo de educao domiciliar, ainda mais radical
Fabola Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)

A turismloga Lis Maria Silvrio de Oliveira, de 32 anos, decidiu tirar o filho Thor, 5 anos, da escola em 2012, quando se mudou de So Loureno para Belo Horizonte (MG). Na capital mineira, chegou a procurar opes para matricular o filho, mas nada que estivesse de acordo com sua filosofia pessoal. Procurei um tipo de pedagogia que respeitasse o ritmo de cada criana, diz. Desanimada com as instituies que visitou, a turismloga resolveu abandonar o ensino formal e praticar o unschooling, mtodo no qual as crianas aprendem de acordo com suas aptides.  uma alternativa ainda mais radical que o homeschooling, sistema em que os pais levam os currculos da escola para a casa. Muito praticados nos Estados Unidos (leia quadro), esses mtodos voltaram  discusso na semana passada por causa da jovem Lorena Dias, de 17 anos, que conseguiu na Justia, em deciso indita, o direito de cursar faculdade depois de estudar em casa por quatro anos. Dados da Associao Nacional de Educao Familiar (ANED) mostram que mais de 2,5 mil famlias praticam o mtodo alternativo atualmente. Queremos oferecer uma educao com mais qualidade, valorizar o aprendizado de cada indivduo e as escolas no conseguem trabalhar as dificuldades individualmente, afirma Ricardo Dias, presidente da ANED.

LIBERDADE - Lis e os filhos Thrud  e Thor: procurei um tipo de pedagogia alternativa e vou seguir assim at a faculdade

Menos difundido no Pas, mas tambm em crescimento, o unschooling  entendido como uma negao ao modo de ensino das instituies. Ao invs de ajudar, a metodologia criada pelas escolas pode engessar as crianas e o unschooling prope que cada um aprenda conforme o seu interesse e aptides, diz dison Prado de Andrade, doutor em educao domiciliar pela Universidade de So Paulo (USP). Thor, filho de Lis, est aprendendo a partir dessa prtica. Ele gosta de robtica, ento no costumo cobrar matemtica dele. Meu filho absorve assistindo vdeos de construo de avies e drones, deixando a criatividade e o interesse fluir, diz a me, que pretende manter o mtodo at a faculdade.

O problema  que ambas as prticas no esto regulamentadas na legislao brasileira. O Estatuto da Criana e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases determinam que os pais matriculem os filhos na rede regular de ensino a partir dos seis anos. Alm disso, o Cdigo Penal configura como crime de abandono intelectual deixar de prover a instruo primria de filho em idade escolar. Mas atualmente tramita no Congresso o Projeto de Lei nmero 3179/12 para legalizar o homeschooling no Pas. Essas famlias vivem num vcuo porque no  uma atividade proibida nem permitida, diz Alexandre Magno, diretor Jurdico da ANED. Hoje no h um acompanhamento de como a educao se d em casa e a qualidade da instruo no  avaliada pelo Estado. Outro aspecto polmico da educao domiciliar  a socializao. Na escola, as crianas aprendem a enfrentar problemas e desenvolver experincias de igualdade, isso nunca vai ocorrer apenas no ambiente familiar porque as relaes so estveis, diz Telma Vinha, pedagoga, especialista em psicologia da educao pela Unicamp.

VITRIA - Depois de quatro anos estudando em casa, Lorena (segunda  esq.) ganhou na Justia o direito de ingressar na faculdade


5#3 A VEZ DA GASTRONOMIA CEREBRAL
A neurolingustica comea a ser usada no preparo dos pratos para ajudar as pessoas a se alimentar de forma mais inteligente

A neurolingustica (PNL) tambm pode ser aplicada  gastronomia. A tcnica que sugere a reprogramao mental est sendo usada para que as pessoas estabeleam uma nova relao com as dietas e os alimentos. O objetivo  que os regimes deixem de ser encarados como um sacrifcio e as restries alimentares no perdurem eternamente. Afinal, quem consegue atravessar anos a fio  base de saladas e grelhados, evitando triste e heroicamente todas as delcias da mesa? A proposta  ensinar as pessoas a lidarem de uma forma inteligente com suas emoes, a ponto de control-las. O uso racional dos alimentos  uma conseqncia disso. Uma das precursoras no tema, a chef e consultora Carla Elage afirma que  possvel treinar o crebro para comer de forma mais sensata.

INOVAO - A chef e consultora Carla Elage: tcnica de reprogramao mental

Do alto de sua experincia de mais de dez anos aplicando tcnicas de neurolingustica em ambientes corporativos e, atualmente, como consultora de buffets, restaurantes, empresas e hospitais, Carla criou mdulos nos quais busca reeducar as pessoas a preparar as refeies e os cardpios e a se alimentar. A primeira delas  respirar antes de comear a comer. Trs puxadas de ar j ajudam muito, j acalmam, diz. Outra orientao  uma espcie de auto-engano cerebral. Quer comer quatro biscoitos? Pegue quatro, mas separe dois e corte-os ao meio. Estou mandando para meu crebro a informao de que estou comendo um monte. A PNL aliada  gastronomia pode ajudar muito, mas pequenos deslizes esto previstos no caminho. A surge outro ensinamento. No tenha culpa. Culpa gera frustrao, que provoca mais fome, afirma a chef.


5#4 GISELE: DESPEDIDA NO AUGE
Aos 34 anos, a modelo que inaugurou o padro de beleza saudvel se aposenta das passarelas para se tornar uma celebridade maior que as marcas que representa
Paula Rocha (paularocha@istoe.com.br)

A reprter Paula Rocha conta os bastidores deste evento.
Em uma sala de desfiles lotada, cerca de mil pessoas aguardam com ansiedade o show que est prestes a comear. No incio da passarela, um telo mostra os melhores momentos daquela que  considerada a maior top model de todos os tempos. Logo nas primeiras cenas o pblico grita e aplaude, numa exploso de expectativa. Homens e mulheres seguram seus celulares enquanto murmuram  agora,  agora. Quando as luzes se acendem, surge a silhueta que todos aguardavam. Nesse momento, pouco importam as roupas da grife que a musa representa ou o casting estrelado de modelos escolhido por ela para acompanh-la. Cada um dos presentes est ali para ver Gisele Bndchen fazer sua ltima apario nas passarelas, uma despedida decidida por conta prpria, e que ocorre no auge de seus vinte anos de carreira.

DIVA - Gisele no ltimo desfile, pela Colcci e combatendo o nervosismo com gua de coco durante sua preparao no camarim 

A ber model se tornou uma personalidade maior que as marcas que representa. Natural da pequena cidade de Horizontina, no Rio Grande do Sul, Gisele Caroline Bndchen comeou na moda aos 14 anos (leia quadro com a trajetria da top ao lado). Hoje, aos 34,  considerada a modelo mais importante e bem paga do mundo  estima-se que sua crescente fortuna esteja na casa dos US$ 450 milhes (R$ 1,3 bilho). Durante as duas dcadas passadas em frente s cmeras, ela estrelou centenas de campanhas publicitrias e ensaios de moda e participou de incontveis desfiles. A deciso de parar agora, se despedindo na passarela da grife Colcci na edio de Vero 2016 da So Paulo Fashion Week, surgiu da vontade de se dedicar mais a seus projetos pessoais (Gisele tem uma marca de lingerie e uma linha de calados), ao cumprimento de contratos internacionais e  famlia. Desde 2009, a top  casada com o jogador de futebol americano Tom Brady, com quem tem dois filhos, Benjamin, de 5 anos, e Vivian, 2.

O marido, inclusive, estava na fila A do desfile realizado na noite do dia 15 de abril e acompanhou de perto o adeus da mulher s passarelas. Ao lado dele estavam os pais de Gisele, Vnia e Valdir, as cinco irms, incluindo Patrcia, irm gmea e empresria da top, alm de duas sobrinhas. Assim como a plateia, que ficava hipnotizada a cada entrada, os convidados ilustres da modelo tambm vibraram muito ao v-la desfilando pela ltima vez. Em sua segunda apario no desfile, Gisele no conteve a emoo e ficou com os olhos cheios dgua. Ao sair, mandou beijos e acenos para o pblico, que sorriu de volta. Eu me senti muito querida, muito feliz. Obrigada pelo carinho, disse, ao deixar o desfile, visivelmente emocionada. Antes da apresentao, a loira tentava manter a calma no camarim tomando gua de coco e curtindo a companhia da famlia.

Toda a comoo gerada pela ltima apresentao de Gisele  justificada pela importncia que a top tem para o mundo da moda. Gisele contribuiu para a consagrao de um padro de beleza mais natural, diferente do visual heroin chic (herona chique, em aluso ao uso de drogas) que comandava a moda no comeo dos anos 90, diz Joo Braga, professor de Histria da Moda da Fundao Armando lvares Penteado (FAAP), em So Paulo. Sobre a aposentadoria da top das passarelas, Braga acredita que ela pode voltar a desfilar em ocasies especiais. Gisele ainda far desfiles beneficentes ou em situaes muito importantes. Ainda vamos v-la nas passarelas, diz. O pblico espera que sim. 

